Tenho procurado, recebido e publicado comentários de oficiais da PM sobre as assembléias, manifestações e os fatos relacionados à crise que se enfrenta. Alguns pedem que eu dê minha opinião. Aí vai. Ela apenas desdobra vários comentários e editoriais que vi, quando anotava que, “se havia política de segurança, essa não era percebida pelos comandos gerais e regionais das polícias”.
Em geral, os fatos externalizados nas “crises” são aqueles que a legitimam. De um lado -no caso atual- falam de promessa salarial não cumprida. Do outro (governo) questiona-se a representatividade do movimento (apesar da posse do novo comandante, ontem, mostrar que há representatividade, pelo inusitado da posse).
Alguns questionaram a escolha do Coronel Ubiratan para o comando da PM, por seu perfil, mais analítico e menos operacional. Mas ninguém nunca questionou seu preparo, seu conhecimento interdisciplinar, em matérias direta e indiretamente relacionadas à segurança pública. É fato que o Coronel recebeu as promessas salariais e o mês de janeiro/08, como limite, as transmitiu a seu entorno e as usou, agora, provocando sua exoneração. É fato também que não conseguiu a interlocução superior para discutir o cumprimento das mesmas.
Mas profissional com seu preparo não cobraria simplesmente o cumprimento das promessas no prazo exato, se projetasse para o futuro um programa bem sucedido de segurança pública. Até porque o sucesso leva sempre ao reconhecimento, dessa ou daquela forma. Uma análise isenta, conhecidos os fatos e os personagens, apontaria para uma projeção de insucesso nas ações de segurança pública.
Muitos analistas entendem que não há política efetiva de segurança pública. A formação do secretário oriundo da área de inteligência policial da PF, seu subsecretário com a mesma formação, o chefe da polícia civil tendo tido esta passagem em programas específicos (e agora o próprio comandante da PM nomeado) levam a SSP se concentrar em desmontagem da logística do narco-varejo em operações para desmontar paióis e guarda de drogas, e punir exemplarmente os traficantes, tirando deles iniciativa. Mas o narco-varejo aqui -é plástico e não funciona com a logística estável das organizações criminosas, e os delinqüentes já partem com a banalização da vida como natural.
Essas ações assim focalizadas, pontuais e assistemáticas, produzem cenografia, coreografia, e assim imagens e notícias. A imprensa tem colaborado oferecendo carência e editoriais que estimulam e creditam as ações. Mas os sistemas de organização e funcionamento básico das policiais permanecem os mesmos, e por falta de planejamento, acentuam a sua desintegração. E isso chega à tropa em sinais simples. Hoje são os próprios PMs que compram seus uniformes se quiserem renová-los. Enquanto se fala em tanquetas blindadas, os veículos de rotina apodrecem nos quartéis e delegacias. Os delitos de rua crescem a taxas extravagantes, a SSP diz que falta pessoal para patrulhamento, mas prioriza um concurso para 5 mil bombeiros militares (que tem a mesma estrutura remuneratória da PM), que servirão de apoio ao sistema de saúde, enrijecendo a projeção salarial.
A dinâmica destes fatos -ausência de política, erros de estratégia…- leva naturalmente a dirigentes com formação intelectual a não quererem ser sócios do fracasso que eles projetam. Acredito que estas são as razões de fundo que levaram o comandante a provocar sua exoneração, a precipitar os fatos em cima das promessas não cumpridas no momento aprazado.
Ortega Y Gasset -ainda deputado na assembléia republicana depois da queda da monarquia na Espanha- em famoso discurso em 7 de novembro de 1931, afirmava: “Creiam-me: a crise é saudável. A crise tonifica o músculo e torna ágil a cabeça.” É tempo de sair das externalidades -mesmo que importantes- e mergulhar fundo, nas razões que as produziram. A crise existe, mas provavelmente suas razões primeiras, não sejam as verbalizadas no movimento dos oficiais-PM.
Na luta por seus direitos, os PMs reivindicam melhores salários e melhores condições de trabalho. Provavelmente o Sr.Sergio Cabral terá problemas no carnaval pois, os oficiais que estão pedindo para se retirar são os que tomavam conta dos batalhões da área central do rio, e eram responsáveis pelo policiamento do sambodrom. Vai dar alguma confusão por lá.




